Filho da Mãe apresenta Agua-Má no Teatro Maria Matos

É verdade que já passaram demasiados dias desde a apresentação de FIlho da Mãe e do seu disco “Agua-Má”, mas uma moeda tem sempre duas faces: alguém escreveu que “Um filme só começa quando acaba”, e neste contexto tal frase faz todo o sentido, não fosse este álbum algo que necessite de vários dias para ser apreciado, até a poeira assentar.

Água-Má. A Ilha da Madeira. Uma guitarra acústica, e duas mãos recheadas de histórias para contar. Assim podemos introduzir o novo trabalho de Filho da Mãe, ou Rui Carvalho, esse fazedor de aventuras sónicas com um percurso inigualável. Se em todos os álbuns anteriores, Filho da Mãe demonstrava uma curiosidade especial em moldar o espaço que o envolvia com os seus sons, numa exploração acústica presente em todos os seus trabalhos, desta vez o papel desse elemento parece reverter-se. Desta vez, o palco é o Teatro Maria Matos, palco a que Rui Carvalho chama de “casa” várias vezes durante a apresentação do seu novo trabalho, e palco esse que infelizmente enfrenta um futuro incerto.

Fotografia por Vera Marmelo

Ao entrar no teatro, o público é presentado com uma imagem singular: um palco vazio, com apenas um foco de luz sobre uma cadeira, uma guitarra, e fumo. Sabe-se que dentro de momentos, sentar-se-á Rui Carvalho nessa mesma cadeira, e levar-nos-á por caminhos que só ele sabe. Como tema de fundo, temos a ilha da Madeira, que também sabemos que foi o território onde este novo trabalho foi gravado. O concerto incia-se, com sala cheia. O primeiro tema é “Praia”, seguindo a sua ordem natural, e desde cedo nos apercebemos de uma mudança: Filho da Mãe não tem apenas uma guitarra em palco, mas sim duas.

Não é só esta mudança que Filho da Mãe nos mostra neste novo trabalho. Este último álbum soa a um desabafo saudável, a histórias que o músico teria para contar há demasiado tempo: em vez de dar destaque à sua impressionante capacidade técnica, existe espaço entre as notas para ouvirmos o que se passa entre elas (no álbum ouvimos pássaros, ondas), e neste concerto ouvimos os respirares do próprio músico.

O símbolo da alforreca presente no capa deste álbum, ilustrado por Cláudia Guerreiro, transporta-nos para uma estado passivo-agressivo, que muito se cruza com a dinâmica dos temas. Existe um desvio na harmonia que Filho da Mãe nos apresenta ao longo do álbum, que como o próprio conta, foi feito em Lisboa, apenas para ser deitado para o lixo e ser gravado de novo na Madeira. E nós, público, sentimos esta mudança no álbum: É algo que nos tira o chão dos pés, para depois voltarmos às melodias que já nos são familiares. Somos guiados pela mão durante todo o concerto, apenas para depois sermos atirados pela falésia que é a ilha da Madeira.

Fotografia por Vera Marmelo

A partir de “Perseguição de bananas”, tema exploratório em que os pedais de Filho da Mãe entram em ação, navegamos em mares desconhecidos, até chegarmos a “Camelos nas levadas”. “Ponchas como o vento” confunde-nos mas atrai-nos com a sua ambiguidade, levando-nos até uma tranquilidade harmoniosa. Filho da Mãe é isto: tão depressa nos atira com notas agressivas e nos fere com melodias que não entendemos, como nos descansa a alma e quando damos por nós, passou “Marraram as ondas, partiu-se o pontão” e estamos finalmente em “Casa”.

Este último tema, representa no álbum uma gravação de local aparentemente chamado de “Casa”, que dadas as suas características, pensei que fosse o único a não ser interpretado ao vivo. Ora não podia estar mais enganado, pois como o próprio disse, “todos os palcos são para mim uma casa”. Entendemos assim, que foi este tema que foi sendo tocado ao longo de todo o concerto, durante todos os temas e entre eles também, que de certa forma soa a um tributo a esta sala.

De todo o álbum, o único tema que não foi tocado, foi aquele que mais força teve.

Cabeça e Mergulho, em Vinil

Fomos ver Filho da Mãe, e trouxemos memórias.
Obrigado Rui.

Texto por Jérémy Pouivet

Free Web Hosting