Capítulo 1: Dentro do espaço-tempo de Cem Soldos [BS’19]

BONS SONS – DIA 1

14h00. A aldeia vai-se preenchendo, dividindo-se entre palcos e tascas. Com a grande maioria ainda a acomodar-se no campismo do festival, e alguns problemas de logística de pré-temporada traduzidos em atrasos escusados, sente-se a aldeia a meio-gás até ao final da tarde.
Novidade para Adega de São Pedro, que abraça a marca “Poças” como vinho oficial do festival. Constrói um novo espaço de comes e bebes, recheado da já conhecida boa disposição e tranquilidade do Bons Sons.

19h00 Existem crianças, cães de estimação, pessoas de idade e as mais variadas etnias e comunidades juntas para o mesmo propósito: viver a aldeia ao máximo, qual tribo obediente desesperada por concertos, noites suadas e memórias para recordar. Ao descer do dia, sente-se a enchente do campismo a invadir a aldeia, com o cenário até então apresentado a transfigurar-se rapidamente.

21h15. A dupla Benjamim + Joana Espadinha demonstra, em jeito de abertura do “Palco António Variações”, o melhor das parcerias musicais dos últimos anos na música portuguesa. Tendo sido Benjamim o produtor do álbum “O Material Tem Sempre Razão” de Joana Espadinha, a química entre os dois sente-se a borbulhar em palco, com os temas de cada um a serem entoados pelo publico de Cem Soldos. Nota elevada para “Os Teus Passos” de Benjamim e para o tema de fecho de concerto de Joana Espadinha, “Zero a Zero” apresentado no Festival da Canção. Com este concerto, estão abertas as hostilidades no que diz respeito às duplas da décima edição do Bons Sons, sendo que esta dupla seria provavelmente a menos arriscada.

22h30. O funáná pegajoso de Fogo-Fogo agarrou pelas ancas todo o público do Bons Sons a partir da primeira batucada no Palco Lopes-Graça. Em bom jeito da vibe cabo-verdiana, foi dançar e vocalizar até ao último acorde, transportando-nos não só até outro continente, mas também a uma Lisboa cada vez mais cosmopolita e segura das suas raízes. Os Fogo-Fogo trataram de rapidamente incendiar o palco e consequentemente, todo o público, que até direito a comboios e passos de dança intermináveis teve. Funáná a valer.

23h45. Ares nortenhos invadiram o palco “António Variações” com a banda que, segundo o próprio vocalista, demorou 10 anos a pisar a aldeia de Cem Soldos enquanto artistas.
Os X-Wife, munidos do seu indie rock recheado de funk e eletrónica dançável, fizeram o público dançar desde o primeiro tema até ao último acorde Nota máxima para o timbre despretensioso e altamente contagiante de João Vieira, que aliando aos teclados electrificados de Rui Maia, trataram de tornar a terra e fagulhas do chão do Bons Sons numa pista de dança recheada de neóns imaginados.

01h00. A espera era grande. Com o concerto de Fogo-Fogo terminado, rapidamente se viu meia dúzia de fãs ávidos a marcar lugar e negar uma ida à casa-de-banho, em troca de um lugar privilegiado para poder assistir a um dos últimos concertos da banda algarvia.
É agridoce escrever sobre os Diabo nesta altura: uma banda com um léxico e cultura tão enraizada, com tantas referências ao nosso pequeno país, às suas singularidades, à nossa história, encontra-se no seu pico de performance mas tem romaria fúnebre anunciada. Após o anúncio da saída do líder Jorge Cruz, Sérgio Pires tomou as rédeas em frente do microfone, sempre apoiado pelo resto da banda, e pelos fãs do Diabo. A procissão continua, a saudade mantém-se.
Por entre chuvas de Agosto, um palco demasiado encharcado e instrumentos que teimam em desafinar, todos dançámos e afastámos os demónios ao som de letras que brindam e celebram a Língua de Camões. Com o pulsar frenético dos bombos e uma guitarra braguesa que ecoa entre refrões, celebrou-se a nossa tradição num dos palcos mais singulares de Portugal, bem no coração de Cem Soldos. A lebre voltou, deu o vento e chuva na cara, e ninguém nos parou.
Contou-se ainda com a ilustre presença de Carlos Guerreiro, dos Gaiteiros de Lisboa, para um par de temas e mais momentos inesquecíveis. Uma das bandas que Sérgio Pires mais viu e ouviu na sua infância. “Nunca é tarde para concretizar um sonho, caralho.” Sábias palavras.
E agora? Depois de comboiozinhos em festa, danças do vira e saias a rodopiar, os Diabo reconhecem o momento que estão a passar, terminando com “Fronteira”. Olhamos todos nos olhos do beirão. Sérgio Pires e companhia também têm pingos de chuva nos olhos.
O que vem depois da fronteira?

Texto: Jérémy Pouivet
Fotografia: Joana Linhares
Revisão: Gonçalo Carvalho