Capítulo 2: Perdidos na galáxia distante denominada Cem Soldos

BONS SONS –  DIA 2

 

15h30. Os vencedores Gator, The Alligator, traçaram o seu próprio caminho até ao Palco Giacometti – Inatel. Depois de ganharem o Festival Termómetro, brindaram o público de Cem Soldos com psicadelismo e fuzz à moda antiga, não fossem eles de uma terra (Barcelos) que já tanto deu a este estilo no panorama nacional.

Bateria pesada e compassada, distorções orelhudas e o resto é atitude. Palavras para quê?

18h30. A voz de Afonso Cabral soa a mel. Até quando este nos avisa que no seu disco de estreia “Morada”, alguns trechos são cantados por “duas vozes femininas muito mais simpáticas que a sua”, o seu timbre e postura descontraída são aposta ganha.
Sentimos que o público de Cem Soldos está rendido a Afonso Cabral desde o seu primeiro acorde. A energia é transmitida pelo público qual ligação direta e este devolve-a com o dobro da força. Songoku ficaria orgulhoso.
Se o concerto começa ancorado por uma energia mais melosa e assente na guitarra acústica, rapidamente somos abalroados pela vertente eletrónica/chill/dub. Em alguns temas, damos por nós dentro de uma pequena nave espacial onde o destino é essa “Morada” que Afonso Cabral tanto nos fala.

Nada de mal vai acontecer enquanto Afonso estiver em palco.

19h30. Se a fusão entre LODO + Peixe fosse um pokemon, seria um Muk. Essa criatura lamacenta arroxeada que ameaça engolir-nos na sua gosma doentia a qualquer instante. De um lado, os LODO puxam o seu sludge sinistro, combinando-se com a mestria do guitarrista de Ornatos Violeta, esse grande Peixe de águas turvas. Juntos, desbravam terreno no palco “Zeca Afonso”, um anfiteatro natural a fazer lembrar um Couraíso em ponto pequeno com vibe aldeã.

Final de tarde perfeito, para quem gosta de beber um copo valente e sentir os seus átomos vibrarem ao som de uma fusão sónica improvável.

23h30. Vamos então conversar sobre o concerto dos já reconhecidos First Breath After Coma + Noiserv.
Ponto numero um: pessoas de Cem Soldos, esqueçam os concertos sentados a partir das 20h. É tão simples quanto isto. Impede a passagem a quem circula, destrói o mood a quem quer abanar o esqueleto e é simplesmente anti-estético. Péssima ideia.

Posto isto, assistiu-se a um momento de comunhão entre Noiserv e os First Breath, com os temas a serem entoados na vez de cada um. Som irrepreensível, vozes afinadas e os corações no sítio. Pena ter sido obrigado a ver o concerto de longe, pois podia ter sido uma história muito mais bonita.

02h00. Ver um concerto de Scúru Fitchádu é como dar um abraço a arame farpado. Daqueles bem afiados. Marcus Veiga atira-nos com o seu funáná à cara durante mais de uma hora, sem qualquer tipo de arrependimento, numa mistura de punk ruidoso distorcido e as suas vivências pessoais, transbordando funáná cabo-verdiano por tudo quanto é sítio. De um lado uma bateria, do outro frequências graves eletrónicas. Dois pólos distintos fundem-se com a voz rasgada de Marcus, que munido com a sua arma branca denominada “Ferro e Faca” (instrumento este que é efetivamente, um ferro e uma faca), nos esfaqueia sem tréguas.
Houve ainda espaço para uma homenagem a Keith Flint, e os eternos Prodigy, numa versão apunkalhada de “Firestarter.” Resumindo: Scúru Fitchádu é impróprio para cardíacos, e não há cá desculpas para quem é pé de chumbo. Ou danças, ou danças.

Texto: Jérémy Pouivet
Fotografia: Joana Linhares
Revisão: João Pedro Ferreira