Capítulo 3 – Podemos ficar nesta galáxia para sempre?

BONS SONS – DIA 3 

 

12h00.  Há coisas mesmo especiais nesta aldeia. Quem acha que veio para este canto de Portugal só por causa de um festival de música, que se desengane. Como já escrevemos anteriormente, este é provavelmente o único festival onde a música passa para segundo plano, e nós não nos importamos nem um pouco com isso. Então se for para assistir a iniciativas como a de “Cem Soldos, Por Detrás do Bons Sons”, somos equipa Cem Soldos a 100%.

A aldeia é feita pelas suas gentes, tradições e histórias que remontam a mais de uma centena de anos para trás, e que ainda hoje sobrevivem pela mão de mais de meia dúzia de aldeões. Através deste percurso criado por Ana Bento e Bruno Pinto (ambos de Viseu), somos conduzidos pelas ruas esguias de Cem Soldos, ouvindo cantigas, histórias, lendas, rezas e músicas compostas pelos próprios, através da recolha de informação que decorreu na aldeia durante mais de um ano. O resultado é um caminho mágico com duração de pouco mais de uma hora. Quando damos por nós, estamos a cantar com a D. Marília (senhora mais idosa da aldeia), que nos recebe de braços abertos no seu quintal.

Se ao início nos sentimos intrusos numa aldeia que não é nossa, assombrados pela ideia de estarmos a ser inconvenientes para as pessoas e lugares que visitamos, os sorrisos com que somos recebidos rapidamente afastam essa possibilidade. Cem Soldos é assim, um lugar igualitário, com um sentido de comunidade muito forte, e uma aldeia muita ativa, onde tão depressa cantamos a “Música das Alcunhas” com a “Chicharrita” da Nazaré, como brindamos a Cem Soldos e ao Bons Sons na Tasca de Tixão na mão. Existe tempo ainda para saber os nomes das famílias da aldeia, ouvir histórias sobre o dia em que a eletricidade chegou a Cem Soldos, assistir a uma música de rock de garagem ou jogar o cântaro. Tudo baseado em fatos reais (como aparece nos cinemas, mas mais sincero)!

Quem não foi, não sabe o que perde, porque depois desta experiência, sentimos que sabemos mais sobre este mágico lugar, e que podemos fazer mais por nós e pelos nossos. Um obrigado sincero a Ana Bento e Bruno Pinto, e acima de tudo a Cem Soldos.

19h30. “Muito obrigado a todos. Estamos aqui provavelmente no melhor festival português, ou pelo menos com o melhor público português”.
Assim se abrem as hostilidades do Palco Amália, neste dia 3 do Bons Sons.
Miramar conta-nos a história de Peixe e Frankie Chávez, numa simbiose acústica entre os dois músicos com duas carreiras já bem consolidadas. Encontraram-se por acaso e rapidamente criaram uma harmonia ímpar que hoje, se transforma num convite para viajar pelos arquivos e memórias dos dois. No ecrã por detrás dos músicos, vemos paisagens de outros tempos: uma estrada, montanhas, mar, uma linha de comboio, uma família. Tudo convites para embarcar nesta viagem que sonicamente é uma delícia de dedilhados e acordes que se unem e desunem, com as guitarras a terem uma força arrebatadora e a proporcionar ao melhor público português um final de tarde perfeito.

Até o vento ajudou a dar algum dramatismo.

22h00. Stereossauro mergulhou no mundo do fado, retirou de lá o que lhe interessava, juntou as suas skills de mistura e scratch, e fundiu o hip-hop e música eletrónica. O resultado desta fórmula é uma sonoridade de portugalidade contemporânea, bastante segura das suas raízes mas sem medo de traçar novos caminhos. Tema após tema, como se de uma mixtape se tratasse, o concerto de Stereossauro e companhia (destaque para DJ Ride e suas capacidades animalescas na arte do scratch) apresentou-nos as histórias e sonhos deste “Bairro da Ponte”, com as várias personalidades que fazem parte deste disco a suportarem a componente lírica de cada tema. Amália Rodrigues, Carlos Paredes, Camané, Slow J, Dino De Santiago, Capicua, NBC, Ana Moura, Gisela João, todos cabem neste disco, neste concerto, neste país. Stereossauro dá voz ao nosso país, sem dizer uma palavra. Do pobre ao rico, do subúrbio à metrópole, juntos celebrámos a nossa língua em Cem Soldos, e só podemos estar gratos por isso.

23h15. “Transgressão” sempre foi o nome do meio dos Pop Dell’Arte, dividindo críticos e opiniões ao longo dos anos. Na terceira noite do Bons Sons, no Palco Zeca Afonso, não terá sido diferente. Com o festival completamente esgotado, os Pop Dell’Arte serviram como digestivo azedo para quem saiu do jantar e queria ver um concerto ímpar, reunindo uma boa legião de fãs na primeira fila deste mini-anfiteatro. Ao longo deste concerto, nunca nos sentimos seguros, por entre os devaneios de João Peste e um instrumental crescente, refletindo que os anos podem passar, mas a irreverência nunca desvanece.

00h30. Tiago Bettencourt saberia à partida, como domar esta enchente de pessoas. O que provavelmente não estaria à espera era uma receção tão calorosa das pessoas de Cem Soldos que rapidamente se posicionaram e aqueceram vozes a partir da primeira palavra.
Tema após tema, o coimbrense venceu e convenceu com a sua postura de rockstar familiar, chegando a todas as pessoas da aldeia com o seu timbre caloroso que já lhe é reconhecido. Apostamos que não existia uma alminha que não soubesse pelo menos um refrão de Bettencourt. E se essas dúvidas existiam, dissipar-se-iam no momento em que este lança a “Carta” e se afasta para ouvir o quão afinada esta aldeia está. Com o treino de dez edições, pudera.

 

Texto: Jérémy Pouivet
Fotografia: Joana Linhares