Capítulo 4 – Não queremos voltar à realidade.

BONS SONS – DIA 4 

14h00. Nesta décima edição do Bons Sons, tornou-se claro a força e simbologia do projeto “Música Portuguesa A Gostar Dela Própria”, quando contextualizado no Bons Sons. A figura de Tiago Pereira é agora a de um pai de todos nós, desvendando e educando-nos acerca das tradições deste nosso Portugal, que ainda batalham para se fazer ouvir e sentir. O projeto “Vozes Tradicionais Femininas” da Casa da Comarca da Sertã demonstram isso mesmo, fazendo-se ouvir por todo aquele corredor de gente e sorrisos, em que ao contrário do que seria expectável, são jovens que fazem a sua parte em imortalizar tradições. Um momento bonito, singular e especial, como todos no palco MPAGDP.

15h30. Dicas de como abrir um palco no quarto dia do Bons Sons: existindo alguma dúvida, os Galos Cant’às Duas esclarecem. Uma espécie de “Guia do Fazer”.
Se no primeiro álbum as vozes eram uma ferramenta tímida, este segundo disco apresenta-nos os viseenses muito mais seguros de si próprios, não só em termos de identidade estética e musical, mas também com a confiança certa quando vocalizam entre si.
A verdade é que quando as coisas saem diretamente daquele pedaço de carne a que chamamos coração, tudo ganha uma nova forma, numa nova dimensão. É exatamente isto que acontece com a música dos Galos. A partir do primeiro loop, da primeira nota de baixo distorcido, do primeiro contratempo entre bombo e tarola, tudo é permitido nesta nova dimensão. Existem camisas floreadas, instrumentos coloridos, algum glitter (bela tarola, Hugo), e muita música com significado.
É curioso que se tentarmos catalogar esta banda em alguma referência mais óbvia, encontramo-nos numa encruzilhada. Começamos numa synth pop, passamos por um registo mais ambiental que pisca um olho a Basinski ou Grouper e rapidamente levamos um soco de fuzz a celebrar bandas como Quelle Dead Gazelle ou até Battles. Chegamos então à conclusão que este “Cabo da Boa Esperança” não nos dá respostas diretas, apenas só mais perguntas e questões.

É impressão nossa ou eles levantaram voo durante alguns segundos, ali naquele final?

17h30. Pedro Mafama, estreante no Bons Sons, mas com uma boa legião de fãs atrás. É verdade que o género do hip-hop tuga não terá sido dos mais explorados ao longo dos anos em Tomar, mas a celebração da palavra portuguesa tem todo o lugar do mundo no palco Giacometti – Inatel. Vestido todo de vermelho-sangue, que nem um messias da nova geração, desbravou terreno perante uma plateia que foi ganhando gosto aos passos de dança que iam surgindo. A voz processada de Mafama é utilizada como um instrumento desafiador, com harmonias e dissonâncias a serem uma constante. Sempre acompanhadas pela beat profunda e demonstrando a escola também adoptada por nomes como ProfJam, Mike El Nite ou Slow J. Pedro Mafama apareceu, agitou mentes e esqueletos e há-de se trazer mais deste género à aldeia.

20h45. “Esta vai ser a loucura total”. É impensável pensar que esta frase seria dita por Luísa Sobral num concerto, dado o seu registo tão intimista e algo tristonho, mas a verdade é que foi mesmo ouvida. Estes são os efeitos deste festival, e sua plateia, nos músicos que têm o privilégio de tocar no Bons Sons. Alegra-nos. Agarra-nos. Move-nos. Dá-nos vontade de fazer mais e melhor pela aldeia, pelo território, pela nosso país.
O Palco Zeca Afonso proporcionou nesta edição, vários momentos de carácter quase religioso, e este foi sem dúvida um deles: Luísa fez-se acompanhar de quatro músicos, guitarras e três sopros, e o resto ficou na memória de cada um. O timbre já distinto da compositora de “Amar Pelos Dois” abraçou todo o público em guitarras baixinhas, uma vibe jazzy e uma voz que comove. Primeiro pela mestria com que as palavras são delineadas, depois por todo instrumental e mood que se cria neste palco.
Luísa Sobral é, para além de extraordinária musica e compositora, uma enorme contadora de histórias, o que só cria uma empatia e suspense maior na altura de acompanhar as letras. Este Palco Zeca Afonso, marcado por duas oliveiras, relembra-nos que é só aqui, nesta aldeia, que acontece magia deste tipo. Quantos de nós, não saímos a trautear “Xico, oh Xico…”?

Ah e Benjamim, não te preocupes. A tua mãe é mesmo fixe.

00h15. Qual é a ideia. Estas foram literalmente as primeiras palavras do concerto de Dino D’Santiago, esse novo profeta da música africana que invadiu e abraçou Portugal nas suas raízes, com ondas de Funáná, Morna e Batuku. O público repete e acompanha. Qual é a ideia? A ideia é a de dançar até mais não, espantar demónios e tornar esta noite fria na noite mais quente do ano. Hoje, toda a aldeia dança. Já percebemos qual é a ideia.
Todo vestido de branco, como já nos habituou, Dino joga logo de início duas cartadas altas, com os seus dois temas mais conhecidos, “Nova Lisboa” e “Raboita Sta. Catarina”, moldando o público a seu bel-prazer. Qual maestro de vontades, ordena as palmas e as ancas de cada um de nós como bem lhe apetece, e a partir daqui é sempre subir. A música cabo-verdiana é mesmo assim: se não contagia à primeira ou  à segunda, tenta mais meia dúzia de vezes até termos as pernas doridas. E depois disso, continuaremos a dançar. Mesmo quando Dino D’Santiago, qual Moisés do séc. XXI, separou o publico em duas partes iguais, e dançou no meio de todos. “Quero-me perder no meio de vocês, Bons Sons”.O golpe final foi dado pelo entoar monstruoso de toda a aldeia, quando a primeira linha de voz de “Sodade” foi cantada. Cesária Évora, onde quer esteja, estará certamente orgulhosa deste seu discípulo.
Se esta edição do Bons Sons 2019 celebrou a língua e música portuguesa como ninguém, é seguro afirmar que Dino D’Santiago passou com distinção essa tarefa. Essa nova Lisboa de que o africano nos conta é uma realidade, cada vez mais multicultural e plural, rumo a uma cultura sem donos. No final de contas, as soluções começam de pequenas ideias, pequenos movimentos, pequenas vontades, e esta aldeia faz mais que a sua parte rumo a um país melhor.
Viva o Bons Sons. Viva a melhor aldeia do mundo.

Texto: Jérémy Pouivet
Fotografia: Joana Linhares