Festival F # Um dia memorável e esgotado

Visitar o Festival F foi conhecer uma cidade emoldurada por história e uma muralha. Faro é uma cidade à beira-mar plantada que apesar do calor, nos deixa maravilhados com um certo encanto natural de um lugar que pertence a quem por ali passa. O festival integra-se assim nesse espaço, tornando-se de Faro e das pessoas. O burburinho é notável pela camada mais jovem que contacta com os amigos para se reunirem ao fim do dia de trabalho na zona da sé.

No cartaz estiveram artistas e bandas como Amor Electro, Ana Bacalhau, António Zambujo, Baile Funk, Capitão Fausto, Carolina Deslandes, Linda Martini, Mayra Andrade, Profjam, Ornatos Violeta, Blasted Mechanism… numa proposta que navega entre o pop, o rock e o hip-hop. O Stalking esteve presente num dia memorável para o Festival F, o dia em que pela primeira vez em 6 edições houve bilheteira esgotada! Na nossa mente tudo isto se deveu à presença e comemoração do 20.º aniversário da edição do álbum “O Monstro Precisa de Amigos” de Ornatos Violeta, que fecharam, ali, uma jornada de concertos de despedida. Mas esse não é o nosso único destaque!

Mayra Andrade | A música da cabo-verdiana é do mundo, e todos nós temos lá um lugar guardado. Mayra Andrade já percorreu caminhos na música tradicional cabo-verdiana, no jazz, na world music, na pop e nos mais variados estilos, até aterrar neste registo só seu. “Manga” hasteia a bandeira de Cabo Verde com as suas cores, cheiros e vivências, mas não se fica apenas pelo continente africano, muito pelo contrário: é um disco que celebra a união, a multiculturalidade, a diversidade. No fim, todos somos iguais quando dançamos.
Em terras algarvias, o público do Festival F é tímido mas sabe dar aquele jeito especial à anca quando os ritmos do funáná se fazem sentir. Mayra Andrade e companhia visitam e revisitam uma África reinventada através de temas como “Manga”, “Vapor de Imigrason”, “Pull Up”, com um registo um pouco mais contido do que se estaria à espera. Verdade seja dita, as tours cansam e a promoção deste disco já leva muitos meses de viagens e concertos. Mas na verdade, nenhum africano/a faz neste momento, o que Mayra Andrade é capaz de fazer, seja a nível instrumental, seja ensaiado ou de improviso, dançado ou cantado. A fusão de experiências e referências musicais levam-nos para um mundo onde Mayra é rainha, e todos à sua volta dançam até ao nascer do sol.
Numa altura em que sentimos os continentes  deste planeta estão cada vez mais divididos, a África e os seus dão o exemplo. Todos cantamos, todos sorrimos e todos dançamos na mesma batida e frequência. Mesmo não percebendo uma única palavra de criolo.
Avé Mayra.

Ornatos Violeta | Acendeu-se a luz. Estão vivos outra vez.
Até o nosso amor morrer.

Se assim for, então os Ornatos Violeta já conhecem a imortalidade de cor e salteado. Dificilmente existirá outra banda que chegou a tantas gerações diferentes, e que continuará a chegar, independentemente de novos álbuns ou concertos de reunião passados algumas dezenas de anos. Linhas como “Quero Mijar” ou “Dá-me A Tua Mão e Vamos Ser Alguém” serão eternas, quer sejam ditas pela voz de um recém-adolescente de 14 anos ou um pai de família de 40. É música que une uma nação, que nos fala de uma rebeldia inconstante, de uma adolescência que deixa saudades, de loucuras pouco saudáveis. É música do Norte (como tantas vezes ouvimos por entre o público) mas que chegou a todo o país, regada entre asneiras e letras poéticas como só Manel Cruz sabe.
Mais precisos e robustos com o seu som, os portuenses agarram a primeira edição esgotada do Festival F pelo pescoço logo ao primeiro acorde. Afinal, a idade não perdoa mas com ela vem também mais sabedoria e precisão, e isso sente-se durante todo o concerto principalmente na voz de Manel Cruz, que é literalmente como o Vinho do Porto.
Fez-se amor em palco, com direito a gemidos, quando Manel e Peixe se deitam no final de O.M.E.M. Repetiu-se a “Pára-me Agora” até à exaustão. Contou-se até três antes de “Capitão Romance”. Arranharam-se gargantas ao entoar pela última vez, os versos dos Ornatos Violeta, num misto de saudade e melancolia, com a certeza de estarmos perante uma das bandas mais peculiares desta nossa nação. Se o Monstro precisa de amigos, ontem não teve de procurar muito.
Amanhã estaremos todos um pouco mais roucos, mas também mais felizes.
Agora, é tempo de amar, para dentro.

Texto: Jérémy Pouivet
Fotografia: Joana Linhares