O Terno, no Festival para Gente Sentada

22h00. O magnífico Theatro Circo em Braga apaga as suas luzes numa sala que ainda se compõe, mas que irá rapidamente ficar sem lugares vazios ao primeiro acorde. Iremos todos cantar e dançar levemente nos assentos ao som de O Terno, trio de rock leve alternativo encabeçados por Tim Bernardes, que munidos dos seus arranjos orquestrais e histórias em que todos nos revemos e identificamos, nos agarra pelo coraçãozinho e nos vira do avesso como poucas bandas o fazem atualmente.

Sabíamos, desde cedo, que este concerto em Braga seria uma pequena montra (a banda dispunha apenas de aproximadamente 50 minutos para atuar) do novo trabalho “atrás/além”, onde Tim Bernardes troca a guitarra elétrica pelo piano e as distorções dos anos 60 por violinos e instrumentos de sopro, resgatando assim alguns arranjos que fazem pairar as melodias de uns rapazes de Liverpool chamados Beatles. E assim foi: “Tudo o Que Eu Não Fiz” e “Pegando Leve” fazem-nos suspirar e pensar para nós próprios “este gajo até tem razão”, com os temas a abordarem uma apatia quase constante com que nos deparamos na fase adulta de uma vida que passa demasiado depressa. Uma vida onde queremos aproveitar mas também não queremos arriscar demasiado. Não é uma temática nova: os Capitão Fausto abordaram histórias semelhantes, e mais recentemente, os Tame Impala também fizeram questão de nos lembrar que vamos ficando cada mais velhos, e que se olharmos para trás, recordamos histórias felizes/tristes, tivemos tudo/nada, e temos saudade do passado/futuro.

Com este novo trabalho sentimos também uma maturidade musical acrescida (proveniente do peso da idade e da experiência), que acompanha as histórias narradas pelo brasileiro mais alto presente no Theatro Circo. Se existem solos de guitarra, são discretos e mais ambientais do que os diretos de “Melhor do Que Parece”, dando assim espaço a vocalizações e arranjos de piano que interligam um tema atrás do outro, com o trio a ser ajudado por gravações dos arranjos orquestrais presentes no disco, presentes em temas como “atrás/além” ou “Para Sempre Será”. Houve tempo ainda para dar aquele jeito ao pézinho ao som de “Culpa” e “Melhor do Que Parece”, trabalhos do disco anterior que mesmo com nova roupagem, vencem e convencem este e qualquer outro teatro.

Depois? O momento negativo da noite. Com todo o teatro embalado no belíssimo tema que é “Volta”, o concerto termina abruptamente, após uns gesticulares além palco que convenceram a banda brasileira a não tocar o seu último tema. Um percalço que deixou um sabor agridoce a uma performance que até então teve pouco de pontos negativos, terminando assim uma atuação que tinha tudo para acabar numa nota mais positiva.

“Volta logo, volta…”

Texto: Jérémy Pouivet
Fotografia: Joana Linhares