Receita: Como aproveitar o Bons Sons ’19

BONS SONS – DIA 0

Tomar. A aldeia de Cem Soldos. O Festival Bons Sons. Vem viver a aldeia.
Uma aldeia em manifesto. O Café da Tonita. A Tixa.

Palavras e chavões que ressoam todos os anos e se amplificam, resultando num dos melhores eventos deste pequeno país, facto que não impede que tenha várias centenas de festivais só na época balnear. Curiosamente, este Bons Sons será provavelmente o único festival em que se pode afirmar de forma positiva e saudável que o elemento musical quase passa para segundo plano, dando lugar a uma aldeia cheia de vida, emoções, e memórias para guardar. É realmente um exemplo de como fazer um evento que resulte como um escape, uma paragem no tempo, onde se pode saborear cada momento com mais calma e tranquilidade, não estivéssemos nós numa aldeia.

Mas a música passa para segundo plano, perguntam vocês? Como assim, com nomes como Diabo na Cruz, Samuel Úria, Salvador Sobral, Ana Moura, Camané, Jorge Palma, Sérgio Godinho, Branko, Moullinex, Conan Osíris, DJ Ride, Capitão Fausto, Surma, Orelha Negra, Mão Morta (e muito mais) a atuarem ao longo das dez edições do festival?

Acontece que o lema “Vem viver a aldeia” é completamente real e serve para ser seguido à risca. As aventuras que podem e devem acontecer ao deixarem-se envolver pelo ambiente de Cem Soldos, criam uma relação tão forte com este território que tornam o elemento musical do festival como uma banda sonora da experiência que é viver a aldeia. O. Tempo. Pára.

Esta paragem no espaço-tempo ocorre porque é um evento que se constrói de dentro para fora. São as próprias pessoas da aldeia que erguem cada bancada, barraca, esplanada, bandeira, andaime ou palco para que pessoas de todo o país (e não só) possam aproveitar este canto de Santarém. Tudo é feito com um toque pessoal, de quem se importa e de quem cuida.
Ao contrário da grande parte dos outros festivais que conhecemos, este não ocupa um determinado espaço durante um determinado número de dias e faz acontecer algo que após um determinado passar de tempo, se transfigura em determinadas memórias empoeiradas de flashes, feedbacks, alguns concertos e demasiada publicidade. No Bons Sons, o festival acontece todo o ano em Tomar, abrindo portas nesta altura de Agosto, fazendo transparecer o trabalho e logistica que aí aconteceu para que tudo fosse possível.

Num segundo ponto, e voltando a falar-se de música e do cartaz que todos os anos compõe o Bons Sons, é certo e sabido que a relevância e “nível de fama” dos artistas passa também, para segundo plano, ou até um plano inexistente. Sendo este um festival de 4 dias (uma proeza nos dias que correm), o cartaz é composto por múltiplos artistas, conhecidos ou não conhecidos, mas que todos ganham força quando embatem com a experiência que é tocar em Cem Soldos para o público de Cem Soldos (que somos todos nós).

Arriscamo-nos a dizer, que mais uma vez ao contrário dos outros festivais, os nomes que são perfeitos desconhecidos têm até mais probablidade de criar momentos únicos e inesquecíveis, quando contextualizados no Bons Sons. Tornamo-nos todos em corpos iguais, sem maior ou menor relevância, juntos para o mesmo princípio e objetivo. Como esquecer o concerto de Homem em Catarse na igreja, a terminar com todo o público a dançar e bater palmas, dando verdadeiramente Graças a Deus?

Com a introdução ao festival, propomos agora uma vista geral sobre esta décima edição: o que dizer sobre as parcerias Benjamim + Joana Espadinha, First Breath After Coma + Noiserv, Glockenwise + JP Simões, Joana Gama + Sopa de Pedra, e Sensible Soccers + Tiago Sami Pereira? Um manifesto de junção de bons nomes e/ou boa música, em que todos fazemos a festa. Juntem a esta receita jogos tradicionais, surpresas pela aldeia e um festival com preocupacões ecológicas (sem filas, pulseiras cashless, cuidados extra com o ambiente), e acrescentem uma pitada de nomes pouco conhecidos mas com enorme potencial de se tornarem focos de atenção nesta edição, e temos provavelmente o melhor festival português.

Aproveitem a aldeia!

Texto: Jérémy Pouivet
Fotografia: Joana Linhares
Revisão: Francisco Carvalho