Tim Bernardes e o seu grande quarto no CCB

“Sejam bem-vindos ao show do Recomeçar. Vamo nessa?”

O Grande Auditório do CCB desligou as suas luzes para receber este fenómeno brasileiro chamado Tim Bernardes, oriundo de São Paulo, uma estrela em ascenção já confirmada. Conhecemo-lo n’O Terno em formato trio, orientados por um registo indie-rock canarinha que rapidamente atravessou territórios e mares além continentes.  Os refrões catchy e videoclipes altamente bem produzidos mostraram-nos que este trio tem muitas cartas para dar, e que Tim Bernardes é uma personagem ímpar, tanto visualmente como musicalmente.

A figura de 1,90m que faz lembrar um John Lennon de outro país senta-se ao piano, e a viagem começa, curiosamente, pelo fim. Ou será pelo início? O seu àlbum de estreia a solo, intitulado “Recomeçar”, tem este percurso circular, que serpenteia por uma relação amorosa arruinada que deixou feridas bem abertas. Tão abertas que daí se escapam os acordes e a voz de Tim, em forma de choro, consolação, saudade e outros sinónimos de um coração partido. Tim Bernardes põe-nos todos a cantar de peito aberto, sobre amores desencontrados e tristezas de outrora, de uma forma paradoxalmente orgulhosa e anormal.
Todos nós já passámos pelo mesmo, todos nós já sofremos por amor, e portanto, todos nos identificamos com as letras deste São Paulista. Não estamos é, à partida, preparados para sentirmos calafrios e arrepios nesta sala escura, onde só um candeeiro ilumina uma guitarra, e se fazem ouvir temas como “Tanto Faz, “Pouco a Pouco” ou “Ela”, entoados por um timbre que teima em nunca desafinar ou soar mal.

“Recomeçar” parte da cabeça de Tim como um projeto que este imaginou durante largos anos num cantinho da sua mente, como um disco que fosse tocado a partir do seu quarto, com toda a intimidade que tal temática merece. Este feeling de segurança e aconchego é transmitido para o palco do CCB, onde o músico nos confidencia que tentou ao máximo tornar esta sala no seu quarto. “Eita, este quarto e bem grande, estou bem in love com essa sala”. Todos os respirares, todos os arranhares e clicks de pedais estão presentes connosco nesta sala, numa comunhão quase religiosa em que o público não se contém, mas também não invade o espaço pessoal do músico.
De repente, estamos numa missa em meia-luz, todos juntos a cantar a letra de “Recomeçar”, temas de colegas seus de São Paulo, medleys, tributos ao seu país e temas de O Terno.

Quem quer que tenha partido o coração a este rapaz, o nosso muito obrigado.

Texto: Jérémy Pouivet
Fotografia: Joana Linhares